Shaun Keefe, The Rush
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A força da ‘velha política’

Em entrevistas, Rodrigo Maia e Tasso Jereissati defendem o valor da política, fazem diagnóstico dramático da situação nacional e cobram a apresentação de uma agenda de reformas pelo Executivo

A entrevista concedida pelo deputado Rodrigo Maia ao Estadão em 03/06/2019 não foi coisa pequena, de importância secundária.

Antes de tudo, porque Maia é presidente da Câmara, de cuja posição lidera um bem fornido grupo de parlamentares. Num momento em que tudo está por ser definido, o governo Bolsonaro carece de capacidade de articulação parlamentar e não prima pela eficácia administrativa, aquilo que fala e faz um integrante de peso do Poder Legislativo merece atenção redobrada. Afinal, ainda continua a ser na Câmara que se decide a sorte das propostas governamentais. Quem consegue obter liderança e articulação ali passa a dispor de um poder expressivo, que precisa ser exercido. E hoje quem faz isso é Maia.

Não é por outro motivo que o presidente da Câmara se dá ao direito de dizer que as reformas de que o país precisa estão hoje sendo viabilizadas por ele: sem seu empenho, “a Previdência ainda estaria nas gavetas da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça)”. Para Maia, os que o atacam a pretexto de defender Bolsonaro estão batendo em quem está salvando o governo.

É assim, também, com os políticos dos partidos vários, incluído o Centrão. A crítica a eles deve se basear em atos ou atitudes, não em definições pré-concebidas, que desqualificam os partidos em vez de criticar as pessoas que erram. Discriminá-los como expressão de uma mal apresentada “velha política” é colocar em risco não só as reformas necessárias como a própria governabilidade.  “Se os partidos que estão no Parlamento provarem que têm a agenda das reformas como prioridade”, não faz sentido marginalizá-los ou estigmatizá-los. O Centrão, que hoje é “tratado de forma pejorativa”, poderá ser visto pela história como o grupo “que salvou o Brasil do colapso social, do crescimento da desigualdade, da pobreza, da falta de educação e da falta de médicos”.

Isso quer dizer que é preciso ter calma para criticar. “A gente tem de radicalizar na ponderação, no equilíbrio, no diálogo”.

O diagnóstico de Maia tem algo de dramático, mas não está longe da verdade. Ele acredita que “chegamos num ponto onde ou nós construímos uma agenda em conjunto ou vamos para o colapso”, com a “ruptura das relações sociais”. O colapso fiscal e o colapso previdenciário já estão maduros. E aquilo que pode viabilizar algum avanço, a política, foi “criminalizada” e “está distante da sociedade”. A sensação é de que a saída não está aparecendo: “Todos os problemas que a sociedade vive hoje passaram a ser atribuídos à política. Alguns pontos são corretos, mas às vezes esse pêndulo é exagerado. Para que a gente possa dar solução para o colapso social, precisamos ter uma agenda que venha do Executivo”.

O presidente da Câmara esteve à vontade na entrevista. Mostrou a força da política bem compreendida. Falou com a autoridade de quem lidera a principal instituição política do Estado. Fez a defesa dela e da importância que tem em um quadro de vazio e desorientação governamental. Tomou como exemplo do que não deve ser feito o ministro da Educação, Weintraub, que “está trazendo a crise para o governo”, não se comunica de modo adequado e chama as universidades para o conflito, atrapalhando as articulações que deveriam interessar ao governo.

Maia foi cauteloso na questão do “pacto” proposto por Dias Toffoli. “Um pacto com compromissos reafirmando a importância das instituições, com princípios, pode avançar. Pactos com agenda que caminhem para o debate ideológico terão dificuldade de passar por todos os Poderes, não só na Câmara. Mas acho que a iniciativa é positiva”.

Não faltará quem veja na entrevista uma manobra de Maia para conquistar maior protagonismo e relevância. Será uma crítica inócua, pois o que se espera, numa democracia representativa, é que os chefes dos poderes conquistem precisamente isso e se ponham a serviço dos interesses mais amplos da sociedade. Seguramente, é melhor que seja o presidente da Câmara quem se interesse por essa conquista.

Dias depois da entrevista do presidente da Câmara, foi a vez do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) fazer outro alerta bombástico. Apoiado em vasta experiência política, não desfiou palavras sem fim, foi direto ao ponto. Para ele, Bolsonaro não só é “inexperiente”, como não tem “aptidão para governar”. Caracteriza-se por ter um enorme “desconhecimento da coisa pública”. E confessou perplexo: “Isso é uma coisa inédita, eu nunca vi isso”.

Tasso enfatiza que a situação é estranha e delicada, pois “o próprio governo cria crises para desestabilizar e cria um clima que não é propício ao investimento, que é fundamental”. Tem uma base na área econômica, que vai na direção certa, mas tudo se complica quando o governo insiste na “visão retrógrada em relação à liberdade das pessoas e suas opções de vida e manifestação de opiniões”. E ainda tem a influência dos filhos de Bolsonaro, que repercute negativamente no próprio governo, “cria um atrito e desestabiliza, é contra o governo”.

A conclusão do senador é que a ficha ainda não caiu para Bolsonaro, que não se preocupa com a estabilidade nem considera as consequências de seus atos e palavras. Há áreas no governo mal se movimentam, como a Educação, cujo ministro faz selfies  cantando o musical de Gene Kelly, enquanto o sistema educacional está em situação crítica. “Isso é uma coisa que leva a uma frustração muito grande a quem está preocupado com o País. Dá um certo desânimo. A sensação que temos é de uma educação parada”.

Ambas as entrevistas funcionam como alertas, mostram a preocupação que afeita importantes áreas da política nacional. Bolsonaro, porém, parece indiferente a isso. Continua a jogar para a plateia, em nome do cumprimento das “promessas de campanha”. Na mesma semana decisiva para a sorte do projeto de reforma da Previdência, envia ao Congresso um projeto que “premia os maus motoristas”, como disse o deputado Marcelo Ramos (PL-AM). É confusão pura.

Culpar a “velha política”, a única que pulsa em Brasília, só servirá para acirrar ânimos e aprofundar a crise de governança.

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