O futuro que nos escapa

Foto de Paulo Portella Filho
Foto de Paulo Portella Filho
A vida mudou, arrastando consigo as imagens que tínhamos do futuro. Diante de nós se abrem uma interrogação, muitas distopias e nenhuma utopia.

Não é só pela pandemia, pela ameaça de uma segunda onda do vírus ou pelas indicações de que ninguém fica imunizado contra ele por muito tempo. Também não é só porque a OMS advertiu que a pandemia continua em expansão, com efeitos que serão sentidos por décadas. É por tudo isso, mas também porque estamos perdendo a ideia de futuro.

Ninguém sabe com certeza como será a retomada. Fala-se em “novo normal” como um esforço para afirmar que as coisas encontrarão um eixo, um padrão regular. É um reflexo automático daquela necessidade primal que temos de segurança, ordem, estabilidade, rotina.

A verdade é que o futuro está coberto por trevas obscurantistas e promessas de regressão. É como uma paisagem na neblina. Sabemos que há algo lá e que lá chegaremos, mas não conseguimos deslindar a imagem por inteiro. O futuro escapa-nos por entre os dedos. Não temos mais uma ideia de “progresso”, que moveu a modernidade e o capitalismo desde que se projetaram na História. Mas intuímos que não voltaremos a viver como nossos pais, mesmo que conservemos muito do seu legado de hábitos e valores. Estamos meio que a esmo, perplexos.

O arranjo socioeconômico, institucional, cultural é outro. A começar da família, que modelou até hoje a sociedade. Nossos filhos adotam novos formatos de vida familiar, de casamento, vivem juntos de maneira distinta, são felizes ou infelizes de um modo todo deles.

A mesma coisa na economia. Damos como óbvio que todos querem empregos estáveis, longas carreiras em empresas sólidas, rotinas estabelecidas, carteira assinada. Seria a receita contra a precarização, um remédio para valorizar o trabalho e os trabalhadores. Não sabemos se é isso mesmo que as pessoas querem. Talvez não seja a expressão do desejável para as novas gerações, mais chegadas ao improviso, à excitação do movimento, da velocidade. Também ignoramos se tal cenário é factível num mundo de tecnologias onipresentes e mudanças aceleradas. As próprias empresas, por sua vez, na maioria, estão atarantadas, com dificuldades para se reposicionar no mercado, reformular plantas e procedimentos, instituir novos formatos organizacionais.

Mas é evidente que estamos amarrados à incerteza, prisioneiros de um processo de confusão e perplexidade. Não podemos dizer que os trabalhadores do futuro serão todos “empreendedores”, pessoas que determinarão livremente suas expectativas de renda e o ritmo de suas atividades. Há micro-empresários e trabalhadores de aplicativos em expansão, mas estão todos marcados pelo risco, padecendo o mesmo infortúnio da condição precarizada, sem proteção social, férias remuneradas, plano de saúde e previdência.

Dá-se algo parecido na política. É quase impossível admitir que os partidos voltarão a ser o que foram no século 20, estruturas burocráticas, pesadas, focadas na conquista e no controle do poder, com dirigentes que se eternizam no cargo. A democracia está posta como valor, inquestionável para a maior parte dos humanos. Mas os sistemas democráticos estão em crise, são chantageados e corrompidos por líderes e movimentos fundamentalistas, que se querem “patrióticos”, mas minam sistematicamente as bases da Nação e do Estado. É uma massa enorme de pessoas desprotegidas. Temos de nos empenhar não só por programas de renda mínima, mas por uma nova política de proteção social, o que ainda não está delineado.

A vida mudou, arrastando consigo as imagens que tínhamos do futuro. Diante de nós se abrem uma interrogação, muitas distopias e nenhuma utopia.

Foi-se o tempo em que Stefan Zweig podia se encantar com o “país do futuro”, que ele via com uma generosa pitada de ufanismo, como uma comunidade que sabia harmonizar seus contrastes. O escritor austríaco viveu no Brasil entre 1940 e 1942, auge do Estado Novo e do hitlerismo, que avançava na Europa. Suicidou-se em Petrópolis.

De lá para cá, houve grandes transformações. Aprendemos muito, o País transfigurou-se de cima a baixo. Mas não temos motivos para nos ufanarmos. Continuamos a carregar o fardo da desigualdade. Nossa produtividade estagnou, junto com a educação. O Brasil está cheio de carências e buracos. Metade da população não dispõe de água encanada e saneamento básico. Hoje não temos governo e a boçalidade se instalou em diversos setores da vida nacional.

O futuro está oculto. Em parte porque pouco sabemos sobre ele e tememos o que imaginamos a seu respeito. E em parte porque o futuro, ele próprio, se oculta de nossos olhos, desarrumado pela realidade. Há um enorme volume de conhecimentos, mas não sabemos, com nossas ciências especializadas, como organizá-los de modo a capturar o fluxo, o processo. Precisamos de uma abordagem que ultrapasse as visões parceladas, “religue-as” (Morin) e apreenda o que está conectado, o todo.

O futuro, a rigor, já está aí, incorporado à vida cotidiana sem que percebamos. O poeta Mario Quintana disse que “o futuro é o que estamos fazendo hoje”, como recordou Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo, acrescentando: “Pelo que estamos fazendo, o que nos espera é um futuro de grandes dificuldade e privações”.

Não há por que fazer previsões proféticas. “A dificuldade de conhecer o futuro depende também do fato de que cada um projeta no futuro as próprias aspirações e inquietações”, escreveu certa vez Norberto Bobbio.

A ordem geral é sempre sobreviver. Não é por acaso que tanto se valoriza o aqui e agora, o que pode ser minimamente “apalpado”, é menos incerto e duvidoso. Nas palavras do neuroientista Sidarta Ribeiro, “o futuro é fonte de estímulo e entusiasmo, mas quando é incerto, como agora, na pandemia, ele traz muita ansiedade”.  A maneira mais saudável de buscar saídas, para ele, é “conseguir focar no presente”.

Devemos compreender que não há somente trevas à frente. Bem ou mal, o mundo se move, os protestos se acumulam, as perversões ficam mais transparentes, a ciência se afirma, a democracia permanece no horizonte. Buscamos o tempo todo ver além da neblina, para agarrar o futuro que nos escapa.

Para sobreviver com dignidade precisamos manter a lucidez e a serenidade, combinando-as com a indignação que nos faz recusar injustiças, nos mobiliza e nos ajuda a manter a esperança e a grandeza de espírito. Essas são nossas estrelas-guia.


Publicado em O Estado de S. Paulo, 27/6/2020, p. A2.

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3 anos atrás

Estimado Prof. Marco Aurélio:

Apesar de ler alguns dos artigos seus no “Estadão”, eu gosto de lê-los todos novamente pois
assim consigo captar todas idéiais. Estamos vivendo num mundo tão estranho, não consigo vizualizar o futuro principalmente do Brasil com tantos políticos incapacitados, egocentricos,
que não imagino o futuro nosso, da democracia e a idéia de um mundo melhor mais progressista
para toda sociedade. O que está acontecendo com os movimentos de direita no mundo ? Tenho a impressão que pararam de ler, do que aconteceu e o que querem para um mundo melhor e mais humano?
Muito agradecida por continuar escrevendo.
Um abraço,
Vera

Pedro Célio Alves Borges
3 anos atrás

Belíssimo texto, Marco Aurélio!
Mais do que os demais textos seus, que acompanho assiduamente, esse me tocou de maneira especial. Tanto que me moveu para deixar registrada a identificação com o que penso, mas não consigo registrar com tamanha lucidez.
Um dos pontos fortes de meu currículo, é de ter convivido com sua inteligência e generosidade, em períodos cujas lembranças influenciam minhas condutas e minha vida.
Deixo um grande abraço.

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