Assembleia Nacional Constituinte, 1988
Assembleia Nacional Constituinte, 1988

O presidente e a classe política

O bolsonarismo é antes de tudo um sentimento, que se alimenta da desorganização dos cidadãos, do ressentimento, da sensação social de que não se pode confiar nos políticos. Por isso, vive nas redes, onde pode exibir uma força de que não dispõe.

Se o próprio presidente da República diz que o grande problema do Brasil “é a classe política”, um obstáculo terrível ao bom governo, o que será que lhe passa pela cabeça como solução?

Um sistema político sem políticos não faz sentido e o presidente deve conseguir compreender isso. Quem negociaria as leis, quem faria as intermediações e promoveria a necessária “circulação” entre eleitos e eleitores? Quem faria o que eles, os políticos, fazem? O presidente conhece o sistema, está nele há três décadas, beneficiou-se dele e gostou tanto que ajudou a promover a eleição de seus três filhos mais velhos, que também se tornaram homens do sistema. Nenhum dos varões da família se destacou, permaneceram todos na periferia, cuidando dos próprios interesses e se dedicando até mesmo a alguns trambiques, que agora veem a público.

Políticos são como o ar que se respira, não podem faltar. Quando de boa qualidade, revitalizam os organismos, ajudando-os a achar o rumo. Quando são ruins, intoxicam e paralisam.

Precisamente por isso, toda democracia que se preze deve conter mecanismos de permanente qualificação dos políticos, dos representantes, a começar da valorização da escola básica e do ensino superior até chegar aos partidos políticos, principais escolas de educação política, que respondem pela seleção de lideranças e candidatos, ou deveriam fazer isso.

Vê-se, assim, que o problema é maior do que “a classe política”.

O presidente poderia ficar tentado a da início à construção de um sistema político que, ao longo do tempo, se preparasse para se autoqualificar de forma permanente, reformando e atualizando seus integrantes. Isso, porém, esbarraria no fator tempo. O governo tem urgências, diz que não consegue governar com os políticos que estão aí, não pode esperar. Seu diagnóstico implica uma lógica terapêutica de outro tipo.

Esta lógica pode abrir-se em duas. Pode privilegiar a lei do silêncio e impedir que os parlamentares trabalhem valendo-se daquilo que os move, a palavra, o debate, a polêmica. Tivesse o governo uma bancada disciplinada, ela poderia promover balbúrdias sistemáticas para perturbar o trabalho parlamentar. A classe política seria represada e reprimida, mas continuaria a respirar.

Outra opção é decretar o fechamento das casas legislativas, instituindo uma ditadura explícita, uma ruptura institucional.

Acontece que, para fazer isso, o presidente necessitaria de uma inteligência tática e de apoios de que não dispõe. Seu núcleo é pequeno e não se caracteriza pela posse de ingredientes indispensáveis: uma elite brilhante, ideias claras, corpos sociais estruturados, brigadas de combate.

Nada disso, o bolsonarismo é antes de tudo um sentimento, que se alimenta da desorganização dos cidadãos, do ressentimento, da raiva, da postura anti-establishment, da sensação socialmente dada de que não se pode confiar nos políticos. É por isso que se dedica tanto a surfar nas redes, onde pode contar com robôs obedientes e passar a impressão de uma força que não possui.

O presidente por certo sabe disso. A essa altura, já aprendeu algumas coisas sobre o sistema que foi eleito para governar. Se não as está utilizando, é porque não se dedica o suficiente. Ou porque está alheio ao mundo que o cerca.

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4 comentários em “O presidente e a classe política”

  1. Um artigo notável que explica de forma luminosa o actual «impasse» político que o Brasil está vivendo na sequência do esgotamento do modo fechado, incapaz de se renovar após três mandatos presidenciais, como o PT se fez afastar do poder sem qq negociação nem alternativa. Em contrapartida, temo que a situação descrita nos deixe sem horizonte negocial de qualquer espécie no curto- e médio-prazo, não?

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