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Partido Novo mergulha na pós-política

O partido resolveu terceirizar o processo de seleção de candidatos. A aposta é que o bom governante deve ser um gestor modelado pelo mundo empresarial, um executivo que não precisa nem deve ser político.

Em uma manobra apresentada como ousada, o Partido Novo contratou a consultoria Exec para recrutar executivos interessados em disputar a prefeitura de oito cidades brasileiras em 2020.

A ideia pretende caminhar na contramão dos processos tradicionais de seleção de líderes políticos, habitualmente coordenados pelos partidos políticos a partir de critérios como capacidade de articulação, visibilidade, coerência doutrinária e apelo popular.

Com a iniciativa, o Novo resolveu terceirizar o processo. Quer encontrar nomes que não tenham “vícios políticos”, possuam “boa vida financeira” e competência em gestão, com “desapego ao poder”. O tipo ideal de candidato é o empresário ou o “executivo de alto escalão”, com provada experiência administrativa e formação superior. O partido quer distância de povo, militantes, grupos de pressão e debates ampliados. Opta por apresentar ao eleitor nomes puros, limpos, imaculados, originários das camadas mais ricas da sociedade e com perfis moldados por critérios do mercado, não do Estado. Acredita que tais nomes carregam no peito uma idoneidade natural.

A decisão do Novo escancara a adesão do partido ao que se pode chamar de pós-política. Para ele, o que contará, a partir de agora, não serão mais as habilidades políticas propriamente ditas (ideias, poder de comunicação e convencimento, articulação, relação ativa com a comunidade), forjadas à quente, no calor de embates intensos. Em vez disso, entrarão em cena as habilidades gerenciais. Sai o estadista que pensa o Estado, entram o executivo e o empresário, com sua frieza de gabinete e sua racionalidade instrumental coladas na lógica mercantil. No lugar da paixão, entra o cálculo; no lugar da política, a gestão.

A aposta é que o bom gestor está pronto no mercado e será automaticamente um bom bom governante. Um bom governante que não precisa ser político – eventualmente, será um político com quase nada de política, ou “sem política” ou mesmo “contra a política”, modalidade que surgiu e avançou nas últimas décadas, como sugeri num livro que publiquei em 2001, Em defesa da política (Editora Senac). É a política dos técnicos, tecnocrática, que se orienta pela máxima “onde há política, há corrupção”.

Liberto da sedução do poder, o político-gestor saberá se valer dos talentos intrínsecos do executivo para governar: realocar recursos, formar equipes experientes, traçar planos estratégicos, cuidar do dinheiro.

A meta do Novo é, evidentemente, fazer boa figura nas eleições de 2020. Sua convicção é que o eleitorado está refratário à política e que, por isso, é preciso continuar batendo nos “políticos tradicionais” e na “velha política” para faturar votos. A introdução de condutas empresariais na política não é algo propriamente novo, mas pode ser reapresentada com cores mais fortes. A da terceirização pós-política, por exemplo. Ou a da renovação política.

Na verdade, não se trata de oferecer uma nova ideia de política, mas de propor algo que não seja política, que seja tão diferente da política que precisaria ser chamada por um novo nome. Um tipo de bicho completamente diferente de tudo o que se conhece.

Pode ser que funcione, pode ser que não passe de uma jogada de marketing. As urnas dirão. O fato, porém, é que o Novo envereda por uma trilha elitista, que valoriza a edificação de um muro que promove distâncias e separações, entre o técnico e o político, entre o gestor e o estadista, entre governantes e governados.

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