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Confronto Moro vs Lula pode ajudar à democracia

Lula vs. Moro, dia 10 de maio de 2017. A montanha parece ter parido um rato.

Só que não. O confronto serviu para que a opinião pública possa por a mão na consciência pela enésima vez.

Pensando em termos gerais e no longo prazo, foi triste ver um ex-presidente da República – uma das grandes lideranças populares do País – sentado como réu diante da Justiça, constrangido, incomodado e tendo de explicar seus atos públicos, suas escolhas, sua vida pessoal, o teor de sua relação com mulher, filhos, amigos e companheiros.

Lula fez o que dele se esperava. Levou ao pé da letra o roteiro que tem seguido em sua defesa: não sabe de nada, não viu nada, não se beneficiou com nada, se alguém fez algo ilícito foi às suas costas, pois se à frente fosse teria sido demitido na hora. Tudo não passaria de perseguição política, de “criminalização” da sua pessoa pelas elites egoístas que não desejam o bem do povo.

É um roteiro triste, até porque nada diz sobre o presente e o futuro e nem sequer consegue defender o passado do acusado. Rebaixa um político com méritos inquestionáveis a ter de expor em público atos que não deveria ter praticado.

Mas a tristeza maior é ver tantas energias cívicas, políticas e intelectuais sendo desperdiçadas para atacar ou defender suspeitos de corrupção e seus algozes, os juízes e procuradores do MP e da Lava Jato. Dada a progressão do processo, as posições se congelaram, nada fará com que mudem. Dentro em pouco, o cansaço e o tédio tomarão conta de tudo, e os “exércitos” de convictos e fanáticos tenderão a buscar novas arenas de confronto. A manutenção de um clima de guerra não beneficia ninguém.

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O País ganharia muito se tais energias fossem democraticamente canalizadas. Contribuiriam para dar outra cara ao Estado, à política e à sociedade.

Bater-se pelo fim da corrupção não pode significar o fim da política e a conversão dos juízes em agentes políticos salvadores. Tal postura serve tão somente para que se extravase o horror que muita gente tem à política, levando água para moinhos satânicos que deveriam ficar eternamente desativados.

Desfraldar a bandeira do lulismo e da santificação de Lula como o único em condições de enfrentar os dragões da maldade serve, em termos imediatos, para que se encontre um eixo para mobilizar um monte de gente que não sabe bem o que fazer, que se desnorteou mas deseja permanecer na liça. No longo prazo, porém, serve só para manter viva uma lenda que já cumpriu seu papel na história, mas não tem mais o que falar para o país real que aí está. Funciona como um bloqueio, que separa e dispersa.

A Lula o que é de Lula. As esquerdas brasileiras que se mantém fieis a ele – por adesão sincera ou por cálculo e falta de opções – deveriam pensar nos próximos passos e buscar, conjuntamente ou em separado, construir uma autonomia e uma força propositiva que sempre dignificaram a trajetória dos que querem mudar a vida, e não somente chegar ao poder.

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