Uma esfera pública com pouca potência democrática

Lygia Pape, PST.
Lygia Pape, PST.
A esfera pública se agita, mas não produz efeitos políticos. Tornou-se um espaço de confusão e um aríete voltado para a imobilização e a ruína da democracia.

Há uma nova turbulência no País. A crise Master se esparrama pelos ambientes políticos. Dias Toffoli virou um “ministro-bomba”, que levanta suspeitas generalizadas de não-isenção. Há uma percepção negativa rolando solta, a constatar que são poucos os que não têm o rabo preso. Fachin fala em “autolimitação”. O STF está dividido e perdendo credibilidade.

Para quem procura observar com isenção e distância a cena político-social do Brasil, a imagem que surge é de uma sociedade cansada, tensa e indignada. O inconformismo parece estar crescendo.

O que chama atenção é que esse quadro de insatisfação e preocupação não produz resultados e não impacta o mundo político. A esfera pública se agita, mas não funciona como espaço para a formação de uma vigorosa “opinião pública”.

Deve-se a Jürgen Habermas, num livro de 1962 (A mudança estrutural da esfera pública), a tese de que a participação de sujeitos bem-informados e com argumentos racionais poderia fazer com que a esfera pública produzisse consensos e diretrizes para orientar a tomada de decisão dos governantes. Partidos políticos, imprensa livre, instituições democráticas e organizações da sociedade civil, ao se posicionarem na dinâmica das discussões públicas, contribuiriam de forma importante para que a cidadania ativa chegasse a conclusões politicamente orientadas.

A vida digitalizada, no entanto, complicou a esfera pública. Hoje, ela é um espaço de confusão e de reduzido efeito democrático. Ao contrário, tornou-se uma espécie de aríete voltado para a imobilização e a ruína das democracias.

Isso deriva, em boa parte, das reverberações da revolução digital, especialmente no que diz respeito à circulação de informações e à comunicação. Vivemos hoje numa economia mundializada e controlada por grandes monopólios que, com enorme liberalidade, capturam dados e informações de governos, empresas e, em particular, de indivíduos, organizando-os em bancos de dados (“nuvens”) que se tornam indispensáveis para todos. Com isso, viram praticamente donas do mundo.

Não é só: esses conglomerados são proprietários de diversas plataformas digitais. Aplicativos de entretenimento, serviços e compras estão à disposição de todos. Idem com as redes sociais. Todos trabalham para capturar dados dos usuários e colocá-los no mercado. Os usuários se convertem, assim, em fornecedores de informações, muitas vezes sem perceberem isso.

Perde-se, com isso, um bocado de liberdade e autonomia, embora tudo seja feito em nome de “decisões” tomadas pelos usuários, que escolhem “livremente” o que ver, ouvir ou comprar. Toda a atenção deles, porém, passa obrigatoriamente pelos filtros e menus oferecidos pela sistema digital.

Não é difícil imaginar a dimensão contraditória desse ambiente. Ele oferece coisas que nos beneficiam e dão conforto, mas, ao mesmo tempo, provoca em cada indivíduo uma sensação de estresse informacional e de abandono da atividade reflexiva mais sistemática. O pensamento crítico fica em xeque.

Em 2022, Habermas publicou Uma Nova Mudança Estrutural da esfera pública e a política deliberativa (Editora Unesp), para atualizar sua reflexão sobre o tema. Procurou compreender o impacto que as transformações digitais tiveram na vida cotidiana e no funcionamento da democracia.

A partir dessa sua nova reflexão, creio ser possível dizer que há dois processos com sinal invertido “corrompendo” a esfera pública política. Por um lado, os cidadãos estão pouco dispostos a se envolver no debate público. Estão cortados pela falta de tempo, pela desconfiança, pela dificuldade de processar o excesso de informação. As organizações que deveriam criar condições para um debate público ampliado fazem pouco para alimentá-lo. Os intelectuais não estão capacitados para fomentar participação cívica. Restariam os partidos políticos, mas eles estão consumidos pelo pragmatismo eleitoral.

Por outro lado, a digitalização da vida provoca dispersão, fragmentação e formação de nichos que arregimentam cidadãos disponíveis, fazendo com que absorvam orientações “mobilizadoras” precárias, sustentadas por fake news e “influencers”. Essa dinâmica cria uma esfera pública paralela, “semipública”, que atua tanto para esvaziar a esfera pública geral como para “colonizá-la” de modo enviesado e paralisante. As plataformas digitais agem manipulando algoritmos que direcionam as intervenções para longe da democracia. O marketing político desenfreado também dá sua contribuição. Nesse contexto, a grande mídia fica sufocada pela “autocomunicação de massa”, embora permaneça ativa  na produção continuada de informação criteriosa.

O resultado é que o espaço público se degrada. Fica congestionado por intervenções digitais alheias a exigências éticas, racionais, políticas. As falas são movidas por intenções particularistas, às vezes perversas, pelo desejo de visibilidade, por motivos político-eleitorais, por paixões ideológicas descabidas, à direita e à esquerda. As narrativas que assim se compõem ignoram a complexidade social e não oferecem horizonte político razoável. A política soçobra, amassada por ressentimentos, ódios e identidades fechadas. Desconecta-se da democracia.

Isso não explica tudo, mas nos ajuda a entender por que a atual turbulência não é processada cívica e politicamente. Não é um dado definitivo, mas que aparece com clareza na situação atual.


Publicado em O Estado de S. Paulo, 31/1/2026, p. A6.

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