A morte do filósofo alemão Jürgen Habermas, ocorrida no último dia 14 de março de 2026, deixou um vazio nos debates políticos e filosóficos.
Ele foi um dos grandes pensadores dos séculos XX e XXI, autor de uma gigantesca produção de livros e artigos que se impuseram como referência para os debates contemporâneos. Suas intervenções sobre as mudanças estruturais da esfera pública foram seminais, reconfiguraram o que se sabia a respeito. Sua Teoria da Ação Comunicativa alterou o modo de pensar sobre a linguagem, valorizou sobremaneira o diálogo público racional e a democracia deliberativa, além de ter influenciado a análise dos movimentos sociais e da sociedade civil.
Habermas também foi um intelectual público. Teve presença ativa em debates complexos (maio de 1968, queda do Muro de Berlim, União Europeia, terrorismo, era digital, redes sociais, ascensão da extrema-direita). A rigor, não houve tema a que ele não tenha dado atenção, fiel à sua tese de que o diálogo racional é a maior recurso para a construção social e democrática.
Axel Honneth, filósofo alemão e ex-diretor do Instituto de Pesquisa Social (Frankfurt). escreveu um pequeno texto sobre o amigo para o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung (15.03.2026). O texto foi traduzido para o português por Marco Aurélio Werle e vai reproduzido abaixo.
Axel Honneth
Ele não deveria viver para sempre?
Jürgen Habermas teve um impacto duradouro na filosofia e na teoria social. Sua morte marca o fim de uma era e deixa um grande vazio, não apenas para seus alunos e colegas.
Embora já se esperasse isso há semanas – ele não queria mais assistir passivamente à destruição de suas esperanças por uma Europa democrática e uma ordem mundial pacífica – , a dura realidade ainda me causa um grande choque. Nós, que lhe éramos próximos, não acreditávamos de alguma forma que Jürgen Habermas viveria para sempre e não nos deixaria sozinhos na miséria deste mundo?
Muitos agora falarão, com razão, do fim de uma era; não apenas o grande intelectual que, com rigor intransigente, alertou contra cada desenvolvimento negativo na República Federal Alemã, não apenas o filósofo mais importante que esta República Federal produziu desde a Segunda Guerra Mundial, nos deixou. Mas, ainda mais, o teórico social crítico que, como nenhum outro, resgatou o legado de Adorno para o nosso presente e o renovou com sua ideia de razão comunicativa, também desapareceu repentinamente. Nós, que queríamos segui-lo nisso, agora nos encontramos órfãos de uma só vez; nenhum de nós possui a força intelectual e a confiança moral fundamental necessárias para dominar essa imensa tarefa.
Habermas não era um narcisista e não tinha vaidades.
Enquanto viveu, alunos, colegas e companheiros se beneficiaram desse extraordinário dom filosófico; quando alguém se encontrava preso em seu próprio trabalho, aguardava a palavra orientadora do velho; quando alguém estava incerto sobre a avaliação de um evento político, ele dissipava as dúvidas com um julgamento consistentemente estrondoso, porém infalível; quando alguém se sentia inseguro sobre um novo desenvolvimento teórico, seu conselho nem sempre era correto, mas ele conseguia identificar espontaneamente os pontos cruciais.
Inesquecível também era a gargalhada sonora que ele podia soltar sempre que era pego em uma pequena artimanha filosófica ou em um caso embaraçoso de identidade trocada – ele não era vaidoso nem narcisista, possuía autoironia e humor renano mesmo no auge de sua fama mundial. Tudo isso agora se perdeu para sempre. Pode ser que, com sua morte, a poderosa tradição intelectual da Escola de Frankfurt tenha chegado ao fim.
Quem se atreverá a reler Dialética do Esclarecimento na contramão e, apesar de toda a solidariedade com o profundo pessimismo dos dois autores exilados (Adorno e Horkheimer), tentará extrair dela a centelha de esperança para uma reconciliação comunicativa? Quem teria a capacidade de combinar diagnóstico contemporâneo, análise linguística, teoria social e ímpeto moral de modo a criar a totalidade coerente de uma obra monumental como Teoria da Ação Comunicativa? “Com a morte de Adorno”, disse Habermas em seu túmulo, “ficamos subitamente estéreis filosoficamente. Quantas razões a mais temos hoje para reivindicar o mesmo para nós, que desejamos dar continuidade à sua obra?”




