Sem Título-1

A política como maldade e grosseria

Bolsonaro insiste em agredir e demarcar um território suficientemente batido e definido, como se fosse preciso reiterar sua hostilidade às esquerdas e seu desinteresse em se comportar como estadista

É espantoso e chega a ser repulsivo que um presidente da República, do alto de sua investidura, fale o que Jair Bolsonaro falou sobre o assassinato de Fernando Santa Cruz, militante da Ação Popular morto em 1974 em pleno regime militar, insinuando saber detalhes de sua morte.

Antes de tudo, porque fez isso com a clara intenção de agredir e intimidar o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, filho do militante assassinado. Valeu-se da crueldade e da covardia para acuar quem não pensa como ele ou não comunga com sua visão do mundo, demonstrando rara falta de empatia e compaixão. Ignorou e desrespeitou decisões dos próprios órgãos do Estado, chegando ao cúmulo de questionar a seriedade e a legitimidade da Comissão da Verdade, que apurou crimes cometidos durante a ditadura. Para ele, não haveria razões para de “acreditar” nessa Comissão e nem na Comissão de Mortos e Desaparecidos. Os documentos por elas emitidos não passariam de “balela”.

Assim como quem não quer nada, de supetão, o presidente desprezou a Constituição e fez pouco caso da Lei de Anistia. Pisoteou, também, o saber historiográfico que já documentou os fatos do período ditatorial, invertendo termos de interpretações consagradas. Não acatou nem sequer o atestado de óbito recém-lavrado pelo Ministério da Família e dos Direitos Humanos que certifica que Fernando Santa Cruz morreu “de causa não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”.

As declarações demonstram que Bolsonaro ainda não processou o passado, que ele idealiza ao bel-prazer, mastigando fel, olhando para trás, negando-se a virar a página de um período que não orgulha o Brasil. Sua visão do passado habita as mesmas cavernas onde repousam seus piores demônios internos.

Tudo indica que o presidente disse o que disse com o propósito de agredir e demarcar um território já suficientemente batido e definido. Como tem ocorrido com frequência compulsiva, buscou se reapresentar como um líder hostil às esquerdas, autoritário, refratário ao convívio democrático, desinteressado de dialogar e incapaz de se comportar como estadista.

Insistir em reiterar uma imagem já fixada no imaginário popular é exibir grave insegurança existencial.

Não é razoável que o presidente se comporte como se estivesse em uma pelada de futebol ou num ringue de MMA, com o agravante de não acatar nenhuma regra. Sua atitude deslustra a República, rasga a Constituição que jurou respeitar e envergonha o Estado brasileiro perante o sistema internacional.

Resta saber se Bolsonaro disse o que disse em decorrência de uma falha cognitiva, de uma pulsão maléfica, ou se houve no ato algum cálculo estratégico. A impressão é que se tratou de uma combinação das duas coisas. O presidente quer fazer política pela via da maldade e da grosseria, deixando à solta os piores traços de sua personalidade, como se não quisesse controlar seu instinto animal. Mas também deseja marcar posição, ocupar um lugar na mídia, cortejar seus eleitores mais fanáticos. “Eu sou assim, não é estratégia”, disparou. Bolsonaro age por saturação, o que sugere que por baixo de seu despautério pulsa uma “lógica” que somente ele domina.

Como escreveu o cientista político Carlos Melo, “os destemperos do presidente mantêm sua tropa unida, agregam e dão sentido a setores tão reacionários quanto ele”. Bolsonaro fala para uma militância que não entende o que está em jogo e se movimenta por fantasias pré-fabricadas e imagens extremistas.

A “lógica” que julga alimentar sua conduta ten um quê de suicida. Isola o presidente no mundo político, causa mal-estar generalizado, aguça conflitos desnecessários e pode, se não for desarmada, produzir uma desagregação sociopolítica que levará para o ralo o Estado democrático e o lugar do Brasil no mundo.

A persistir nesse padrão de conduta, seus dias na Presidência ficarão manchados de sangue e fúria, e nada trarão de bom para o País. Serão um pesadelo, do qual levaremos um tempo para nos libertar.

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1 comentário em “A política como maldade e grosseria”

  1. Não penso que seja estratégia. Já pensei sobre esta possibilidade, mas, hoje, acredito que é uma combinação de grosseria e burrice, mesmo. Custa crer que este homem foi eleito para a Presidência do país.

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