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A Presidência improvável

Quando o PT, em 2010, aceitou a presença de Michel Temer como vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff não esperava que seu governo viesse a enfrentar problemas nem que pudesse sofrer o impeachment. Estava-se no auge de um projeto de poder que se imaginava destinado a durar para sempre, ou ao menos por um tempo bem elástico.

Deu-se ao vice o mesmo tratamento que costumam receber todos os vices, ou seja, um papel decorativo, protocolar, sem que se atentasse nem para a força e a voracidade do PMDB, nem para a sagacidade do próprio Temer.

O arranjo passou para o segundo governo Dilma e foi lançado no plano superior da política quando as coisas desandaram, em 2015. Temer se converteu assim, malgré lui e sua biografia, na ponta de lança da manobra que derrubou Dilma. Tornou-se um dos operadores principais do impeachment e, com ele, chegou à Presidência. Ficou então encarregado de levar o País para o outro lado do rio.

Agora, Temer comemora um ano no cargo, aí incluídos os cinco meses de interinato. Balanços estão sendo feitos, como de rito e costume. Falam que se trata de um período profícuo, que pôs na agenda algumas reformas decisivas e mostrou grande capacidade de controlar o Congresso, em que pesem certas dificuldades. Falam até mesmo que a recessão já passou, que a retomada é uma questão de tempo, que logo os 14 milhões de desempregados começarão a desidratar. A confiança teria voltado e o País estaria a um passo de se pacificar e de acertar as contas com a corrupção.

Devagar com o andor.

Temer será visto, no futuro, como um presidente que não se caracterizou pela capacidade de dialogar com a sociedade e de persuadir aqueles que nele não confiavam cegamente, que hoje são muitos. Um presidente congressual, concentrado no jogo parlamentar e na política miúda.

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Seu primeiro ano mostra uma Presidência péssima em comunicação e um presidente travado, sem agilidade e interesse em interagir com os governados. Explica pouco, seduz nada, não se dedica a erguer uma plataforma de esperança para os brasileiros. Quer fazer avançar reformas amargas e impopulares sem convencer ninguém da validade intrínseca delas. O único argumento que utiliza é que sem elas tudo será muito pior. Bastar-lhe-ia conquistar o apoio de deputados e senadores, arrancado à custa de muitos artifícios, favores e pressão.

O artigo por ele assinado hoje no Estadão ilustra bem o tipo de comunicador que é Temer. Elenca serviços e realizações como se fossem evidentes e pudessem ser sentidos por todos, mas não é propriamente convincente, como se não lhe importasse a compreensão dos governados. Apesar disso, o texto reitera o que precisa ser a trava de sustentação do governo: “Não haverá vencedores num país em que as vozes plurais da sociedade não possam ser ouvidas e respeitadas. Chamei ao diálogo, à união”. Ao mesmo tempo, se esforça para sinalizar o rumo que almeja: “Nosso governo não é populista, mas tem sabedoria para melhorar os programas sociais sem comprometer a responsabilidade fiscal. Nossas medidas são populares porque vão beneficiar milhares de brasileiros, mesmo que o reconhecimento venha muito depois”.

Interessa-lhe não o aplauso do momento, mas um lugar na História.

Temer é de certo modo uma figura paradoxal. Não surgiu para ser presidente da República, não lutou eleitoralmente pelo cargo, chegou a ele por um acaso dos dados do jogo político. Um presidente improvável no calendário previsto e estranho ao modo como os brasileiros entendem a Presidência e seu ocupante. Mas, curiosamente, imprimiu um estilo mais frio e opaco ao centro do poder político, o que não é pouco neste País estraçalhado por crises, pela desigualdade e pela polarização – ingredientes que fazem com que a política seja consumida pela passionalidade, pela demagogia, pelo exibicionismo mais ou menos despudorado.  Não há porque criticá-lo por isso, muito ao contrário.

O governo Temer talvez seja, como falam seus defensores, aquilo que dá para se ter no difícil momento por que passa o País. Pode estar havendo mesmo uma “retomada da confiança na economia”, coisa que, no entanto, somente pode ser sentida pelos operadores do mercado. A agenda de reformas é indispensável e o governo acerta ao privilegiá-las.

Mas o teor das reformas em curso deveria ser mais bem discutido, ponderado, dosado, explicado. Não o sendo, elas até poderão ser aprovadas, mas a população continuará com a boca amarga e sem estar convencida de que seria pior sem elas.

A Presidência improvável de Temer poderá produzir bons resultados e fazer a economia começar a crescer novamente. Os governantes que vierem depois dele, em 2018, serão beneficiados pelos êxitos que eventualmente obtiver e deveriam, por isso, torcer para que ocorram.

Mas a sociedade dificilmente conseguirá aproveitá-la para se reencontrar consigo própria e formatar o futuro. E não por culpa de Temer.

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2 thoughts to “A Presidência improvável”

  1. Ola Marco, como de costume, outra excellente visao do que ocorre por no centro da Politica Brasileira. Acompanhando daqui de longe, me parece bastante real a tua analise.
    So resta agora pensar rapido nas alternativas de sucessao! Espero que o Brasil encontre seu caminho e que a Esquerda seja mais inteligente e pare de se degladiar ( sonho meu)! Obrigada pelo artigo. muito bom!

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