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Entre a docência e a política

Meu ingresso na UNESP, em agosto de 1976, deu-se num momento de particular efervescência pessoal.

Eu começara a dar aulas muito cedo. Ainda durante a graduação, na Escola de Sociologia e Política, me tornei monitor de duas disciplinas de Sociologia, trabalhando com os professores Antonio Gonçalves e Cecilia Renner. A base da minha formação docente veio de lá. Ao me formar, no final de 1972, tornei-me professor da Escola e, ao mesmo tempo, do Ciclo Básico da PUC-SP, na disciplina de Antropologia e Realidade Brasileira, levado por Edgard de Assis Carvalho, que havia sido meu professor na graduação. A equipe de professores era enorme, muito jovem e heterogênea. O trabalho docente era desafiador, pois tínhamos de dar aulas para muitas turmas de vários cursos, além de cuidar da avaliação coletiva dos alunos. Aprendi bastante nos dois anos que passei na PUC, graças a coordenadores como Josildeth Gomes Consorte e Geraldo Di Giovanni, este último meu grande amigo até hoje.

Ao ir para a UNESP, eu estava convencido de que havia acumulado condições para me inserir na vida acadêmica: já não tremia para dar aulas, ganhara segurança para manejar a literatura e, sobretudo, sentia-me capaz de redigir de acordo com os códigos estabelecidos. Ao mesmo tempo, entrava em contato com um ambiente todo novo: o interior de São Paulo, a universidade pública, melhores condições de remuneração e trabalho. Ainda era muito novo: tinha 26 anos, pouca experiência acadêmica, certa “arrogância” marxista. Além disso, a Faculdade em Araraquara era bem diferente da que, com o tempo, acabou por se tornar: era pequena, “caseira”, tinha poucos alunos e poucos professores. Creio que, na época, trabalhavam 70 professores nos três cursos (Ciências Sociais, Letras e Pedagogia) e eu era o mais jovem deles, e um dos poucos a morar em São Paulo. Era um instituto isolado e logo depois de minha chegada seria incorporado à UNESP, que acabara de ser criada.

Tornei-me professor de Sociologia como uma extensão natural da minha curta vida acadêmica. Não se tratou somente de uma questão de oportunidade, dada pelo concurso em que fora aprovado. Eu tivera bons cursos de Sociologia, atuara como monitor em duas disciplinas e havia dado várias aulas na área. Aproveitara plenamente, também, as aulas de Antropologia e a amizade com Edgard de Assis Carvalho, que me mostrara uma ciência social mais unitária e menos especializada. Não tivera, ao contrário, bons cursos de Política. Além do mais, naqueles anos, só a Sociologia existia em termos “institucionais”; a Política era algo in fieri e a Antropologia concentrava-se demais nos povos indígenas.

Minha ligação com a Sociologia não seria sem tensões e contradições. Naqueles anos, eu me esforçava (meio obstinadamente) para fazer a crítica da Sociologia, vista como ciência “burguesa” por definição, fragmentária e especializada, incapaz de se voltar para o todo. Os artigos que publiquei em Temas (1977 e 1978) indicam bem os caminhos que eu imaginava seguir.

Ao mesmo tempo, porém, eu não julgava correto dar cursos de Sociologia que se traduzissem em puro marxismo, pois me parecia uma impropriedade manejar a bel-prazer os conteúdos disciplinares. Interessava-me bem mais trabalhar com as tradições sociológicas propriamente ditas (Comte, Durkheim e Weber) e com a história da Sociologia, por intermédio da qual eu tentava mostrar seus vínculos com o positivismo e o conservadorismo da primeira metade do século XIX. Na base de tudo, a visão lukacsiana do marxismo como totalidade dialética (a “ortodoxia” como sendo uma “questão de método”) e da sociologia como “ciência especializada”. Invariavelmente, meus cursos entre 1976 e 1981 seguiram esse padrão.

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Fui muito impulsionado também, nesse momento, pela convivência na pós-graduação. Entre 1974 e 1977, quando cursei várias discplinas na USP, dois eventos tiveram grande importância na minha biografia.

Primeiro, o ativismo político e intelectual dos estudantes pós-graduandos. Brigávamos para ser reconhecidos como “parte” da Universidade. Estudamos bastante naqueles anos: muitos seminários, grupos, sessões de debate, discussões acaloradas. Era rigorosamente um mundo em ebulição e tudo se resolvia nos “barracões” das Ciências Sociais.

O segundo evento foi uma pessoa: Oliveiros Ferreira, meu orientador, com quem conviveria por todo o ciclo da pós-graduação. Devo a ele no mínimo duas coisas. Por um lado, o curso “O Conceito de Hegemonia na Teoria Política”, que assisti no primeiro semestre de 1974 e que acabaria por selar, por vias “heterodoxas” mas instigantes, minha relação com Gramsci. Por outro, a atitude diante das ciências sociais e particularmente diante do marxismo, fundada no rigor, na densidade cultural e na observação dos fatos da vida. Mais de uma vez já me peguei repetindo para meus alunos a frase que ouvi várias vezes de Oliveiros: “se você quer ser um pesquisador marxista, nihil obstat, mas, por favor, seja um bom marxista”. O que sempre interpretei como sendo uma clara indicação de que, nos embates científicos, o doutrinarismo é um pecado imperdoável, uma arma de fracasso, não de êxito.

O Departamento de Ciências Sociais e a FCL de Araraquara também seriam fundamentais nessa fase. José Aluysio Reis de Andrade, Vera Lúcia Botta Ferrante, Maria do Rosário Rolfsen Salles, Heleieth Saffioti, José Carlos Bruni, Péricles Trevisan, Nilo Odália, José Ênio Casalecchi, Jorge Nagle, Antonio Marcio e Vera Mariza Costa, Helena De Lorenzo, Maria Tereza Kerbauy, cada um deles de modo específico, foram decisivos para que eu amadurecesse como professor.

Creio que, se dependesse do estado de espírito com que entrei na UNESP, do ambiente que encontrei nela e dos estímulos que recebi na pós-graduação da USP, eu teria me doutorado ainda nos anos Setenta.

O projeto inicial de pesquisa (militares e positivismo) fazia sentido e me interessava muito. Era de difícil execução, pois dependia do acesso a documentos guardados em bibliotecas militares e de contatos complicados, mas poderia ter sido realizado. Não foi, porém, o que aconteceu. Engavetei o projeto em 1976 e no ano seguinte aproveitei pedaços dele num artigo para a revista Perspectivas, da UNESP, “Exército e Estado no Brasil Imperial”.

Vi-me assim repentinamente sem projeto. Ainda em 1976, porém, basicamente para atender às exigências de contratação na UNESP, apresentaria, como plano de trabalho para o meu primeiro triênio acadêmico (estágio probatório), o projeto “Joaquim Nabuco: o liberalismo no pensamento político brasileiro”. Praticamente começaria de novo o trabalho de pós-graduação.

Mas esta é apenas parte da explicação. A outra parte não veio da universidade, nem das minhas insuficiências como pesquisador. Veio da política.

Eu estava em contato com a esquerda desde a graduação. Na Escola de Sociologia, entre 1969 e 1972, a esquerda era onipresente. Até por estar a Escola fora da USP e ser pequena, nela circulavam militantes de várias correntes políticas, com a prevalência, quero crer, do pessoal do PCB. Na verdade, todos tinham o PCB como referência positiva ou negativa. Ainda se vivia o auge da discussão sobre “luta armada” ou “luta política”, com as variantes do voto nulo, da abstenção eleitoral, da recusa ao MDB.

Minha turma como estudante foi intensa desse ponto de vista. Reginaldo Forti, Lúcio Flávio Pinto, Raul Mateos Castell, Vera Caldas, Leon Cakof, Oscar Farias, Claudio Kahns, Bruno Liberati, Flávia Castro e Castro, dentre outros, uma turma de primeira qualidade. Fazíamos política no Diretório Acadêmico, circulávamos, tentávamos sensibilizar os alunos, criticar os professores, exigir mais qualidade no ensino. Agitávamos e convivíamos com muitas pessoas de esquerda. Mas também éramos amigos,  nos divertíamos, fazíamos festas animadas, discussões de todo tipo. Havia sido uma descoberta para mim, a primeira picada da militância política.

Na Escola de Sociologia e Política, dava aulas de Sociologia e me relacionava com um grupo de estudantes e professores que girava em torno de José Chasin. Logo, Gildo Marçal Brandão também passaria a dar aulas na Escola e se incorporaria às discussões. Liguei-me a ele de modo intenso e construímos uma amizade duradoura, sempre apoiada na vida intelectual e na política. O grupo da Escola era o que se poderia chamar de “esquerda intelectual”, com a arrogância e o pernosticismo típicos destas agregações. Com os anos, foi se reorganizando, se desfazendo, se cristalizando. Os que mantiveram o vínculo se converteram quase em uma seita, extremamente dogmática e refratária à atividade política. Eu e Gildo seguiríamos outros caminhos.

Em 1977, passei a “militar” por meio de Temas, com o grupo que fazia a revista e dava sustentação a ela. Era evidente que ali germinava um “partido”, referenciado pelo marxismo e pela teoria política do Partido Comunista Brasileiro, ainda que não somente por ela. Fazíamos uma espécie de trabalho preparatório, um tipo de vestíbulo para a militância política; contatos, conversas, discussões, muitas certezas e convicções. Havia, porém, pouca “ação”.

A pesada repressão de 1975, que dizimou o PCB, bloqueava tudo. Com o passar do tempo, porém, as coisas se precipitaram. Em 1978 já havia muita reativação das atividades de esquerda. O movimento democrático cresceu, a anistia deixou de ser uma ficção, o projeto “partidário” passou a ser discutido abertamente, os contatos se multiplicaram, quanto mais se caminhava para o final da década.

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2 thoughts to “Entre a docência e a política”

  1. Muito bom esse texto, professor Marco Aurélio! Também estudei na Unesp de Araraquara e ao ler o seu texto fiquei com muita saudade do tempo que fiz o curso de Ciências Sociais lá. Infelizmente não tive o prazer de tê-lo como professor, mas a sua “fama” era muito grande entre os alunos o que só me deu a certeza de que perdi uma grande oportunidade em poder compartilhar de seus conhecimentos e sua experiência. Foi uma pena.

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