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A revista “Temas” e a Editora Ciências Humanas

Raul Mateos Castell foi meu colega de classe na Escola de Sociologia e Política. Espanhol, com bastante experiência política e passagem por organizações de esquerda, foi também uma espécie de meu “mentor” político nos primeiros anos da década de 1970. Mantivemos uma grande amizade e devo muita coisa a ele.

Quando o conheci, Raul era balconista na Livraria Brasiliense, que funcionava na rua Barão de Itapetininga. Um belo dia, foi demitido e passou a vender livros como autônomo. Vivia com uma mala para cima e para baixo, cheia de livros que comprava de algumas importadoras de São Paulo. Montou aos poucos uma banca na FFLCH-USP, que funcionou durante décadas, com ajuda da esposa. A banca do Raul era um ponto de encontro concorridíssimo, pura animação política e cultural.

Por volta de 1974-75, Raul decidiu organizar uma livraria no centro da cidade. Batizou-a de Livraria Ciências Humanas. Logo depois, expandiu o negócio vinculando uma editora à Livraria. Convidou-me para ajudá-lo na parte editorial e para por de pé uma revista teórico-política. Nasceu assim a revista Temas de Ciências Humanas, fruto das conversas de Raul comigo, com Gildo Marçal Brandão e com José Chasin.

O projeto era “simples”: difundir marxismo pela editora e promover o debate e a agregação dos marxistas pela revista.

Na Editora Ciências Humanas, fizemos alguns livros memoráveis: uma edição do Manifesto Comunista (que eu mesmo traduzi e organizei, incógnito), a tradução da primeira parte de A Ideologia Alemã (que traduzi com José Carlos Bruni), a tradução das Lições sobre o Fascismo, de Togliatti (escrevi a “Apresentação”, as notas, fiz a revisão técnica e traduzi um apêndice) e de vários títulos de uma coleção chamada “História e Política”, idealizada por Reynaldo Carneiro Pessoa, professor de História na USP, e dirigida por ele e por mim até o início dos anos de 1980, quando a própria editora encerrou as atividades.

O primeiro número de Temas apareceu em abril de 1977. Publicava, dentre outros textos, duas traduções: a “Carta sobre o stalinismo”, de Lukács, e “Alguns temas da questão meridional”, de Gramsci, autores que seriam os patronos intelectuais da iniciativa editorial. Foi meu primeiro contato “profissional” com Gramsci, e minha primeira tradução. O número trazia, evidentemente, uma apresentação programática, redigida por mim e por Gildo Marçal Brandão: a revista propunha-se a “rechaçar a especulação estéril, a atividade teórica fechada em si mesma e, por extensão, aceitar e ser fiel à teoria que procura investigar, por detrás das aparências e manifestações fenomênicas, a estrutura social real, a prática efetiva dos homens”. Desejava, também, combater “as contrafações e diluições teóricas típicas do ecletismo de fundo positivista que domina – há alguns anos e não por acaso – o cenário intelectual brasileiro”. Mas a revista não tinha a “pretensão ingênua de partir do nada, de fazer tabula rasa de toda uma produção teórica anterior”, dispondo-se a valorizar o que de positivo a tradição científica brasileira já consolidara, “principalmente ao nível das análises crítico-práticas existentes”.

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Para nós, naquele momento, tratava-se de compensar as dificuldades de realização do marxismo. Estávamos convencidos de que os marxistas politicamente empenhados, os comunistas, cerceados pela ditadura militar, sofriam uma espécie de “concorrência desleal” das posturas acadêmicas, que na época viam os marxistas como expressão de “baixo nível” teórico. Eram criticados sem poder se defender e, além do mais, tinham suas ideias e postulações falseadas pelo debate. O “ecletismo” à brasileira – uma mistura, comandada pela sociologia, de “ética de esquerda com epistemologia de direita”, como falávamos seguindo o léxico de Lukács – se nos afigurava como um obstáculo a ser transposto, um passo obrigatório na batalha ideológica que se travava na esquerda brasileira. A polêmica era importante, também, para facilitar o reposicionamento relativo das várias partes da esquerda na frente democrática e para favorecer o reaparecimento público dos comunistas. A revista queria, em suma, ser o veículo com o qual se criasse uma alternativa teórica aos grupos intelectuais “dominantes”, isto é, os grupos que prevaleciam na universidade e nas ciências sociais no País.

Em termos mais simples, Temas desejava agregar os intelectuais marxistas que, de algum modo, ao longo dos anos, haviam mantido certa comunicação ou identidade com o Partido Comunista Brasileiro. No Conselho de Redação, além de mim mesmo, Gildo Marçal Brandão e José Chasin, destacava-se Nelson Werneck Sodré.

O grande historiador, um dos mais injustiçados pela luta ideológica em curso desde 1964, aceitara o convite convicto de que a revista poderia cumprir uma função importante na ativação democrática e na luta contra a ditadura. Estive muitas vezes com ele, em seu apartamento na rua Dona Mariana, no Rio, especialmente para resolver questões editorais. Entre um vermute e outro, também conversávamos sobre a situação política nacional, o trabalho intelectual e a vida. Eram papos agradáveis, com hora para começar e para terminar, sem concessões.

Além de ter editado praticamente todos os dez números de Temas e de ter feito algumas das traduções nela veiculadas, lá publiquei meus dois primeiros ensaios teóricos. Ambos refletiam bem os compromissos e o programa da revista. No primeiro (“Max Weber: a burocracia e as armadilhas da razão”), a motivação era criticar o uso que se fazia de Weber como “esdrúxulo paradigma” com o qual se pretendia “completar, alterar, falsificar ou mesmo negar” o marxismo. No segundo (“Anotações preliminares para uma história crítica da sociologia”), o alvo era a sociologia tout court, responsável maior pelo “ecletismo” reinante: sua origem e sua natureza positivistas estariam na base de toda a evolução posterior da disciplina, comprometendo-a com uma postura antidialética. Eram textos carregados de “paixão metodológica” e inseridos por inteiro no clima da revista. Cometiam alguns exageros e algumas injustiças, mas continham também um esforço de elaboração teórica, não se perdiam em puro doutrinarismo. Relendo-os hoje, me surpreendo com o fato de que, por detrás da linguagem cifrada e enragé, expunha-se uma proposta de estudo bastante aceitável e consistente.

Vivi Temas intensamente. A revista durou até 1981, depois de ter passado por algumas crises. Nela, me testei como cientista social e comecei a atuar como tradutor. Aprofundei e consolidei a relação com Gildo Marçal Brandão e Raul Mateos Castell. Através dela, pude estabelecer contato com pessoas que se tornariam decisivas em minha trajetória intelectual: Leandro Konder, Carlos Nelson Coutinho, Luiz Sérgio Henriques, Nelson Werneck Sodré e José Paulo Netto. Mantive com eles (que estavam no exterior, no Rio de Janeiro ou em Juiz de Fora) uma correspondência caudalosa, sistemática, repleta de reflexões teóricas e políticas, carregadas de afeto e de recíproca disposição para trabalhar pelo reencontro dos comunistas brasileiros. Pude ter o privilégio de conviver de perto com Werneck Sodré, uma figura extraordinária. Experimentei, pela primeira vez, a tensão de ser “organizador cultural”.

Mais ou menos na mesma época, eu e Gildo aceitamos convite de Wladyr Nader para fazer uma revista de ensaios culturais na editora que ele mantinha, a Escrita. A ideia era fazer uma publicação ágil, para venda em bancas de jornal. Organizamos um projeto e o pusemos em prática. Sob nossa direção, Escrita/Ensaio publicou cinco números, cada um dos quais dedicado a um tema: questão cultural, democracia, sindicalismo, empresas e empresariado nacional. Foi uma experiência editorial bem interessante, mas perdemos o fôlego a pouco e pouco. A revista ressurgiu tempo demais, com outra equipe e outro projeto.

Temas teve duas fases. Na primeira, a revista foi fortemente metodológica, caracterizou-se por buscar um espaço para fazer a crítica teórica e valorizar o marxismo “ortodoxo”, referenciado basicamente pelo filósofo húngaro Georg Lukács. Foi a fase em que prevaleceu um Conselho de Redação que incluía Raul Mateos Castell, Gildo Marçal Brandão, J. Chasin, Nelson Werneck Sodré e eu mesmo.

A segunda fase foi mais política, mais preocupada em fazer com que a revista expandisse seu programa de trabalho e confluísse para a luta democrática. A partir do número 8 (1980), a revista passou a ter dois diretores (Nelson Werneck Sodré e Marco Aurélio Nogueira) e instituiu um Conselho Consultivo composto por Antonio Pinheiro Machado Neto, Carlos Nelson Coutinho, David Capistrano Filho, Denis Bernardes, Gildo Marçal Brandão, João Batista de Andrade, José Chasin, José Paulo Netto, Leandro Konder, Marco Aurélio Nogueira, Nelson Werneck Sodré, Paulo Cavalcanti e Raul Mateos Castell. Nos dois números seguintes, que foram os últimos da revista, criou-se um Conselho de Redação integrado por Antonio Carlos Robert Moraes, Carlos Eduardo Jordão Machado, Celso Frederico, José Paulo Netto, Milton Lahuerta, Raul Mateos Castell e Wanderley Messias da Costa.

A pretendida ampliação da revista se misturou com o avanço da luta política no país. Outros projetos apareceram (como o jornal Voz da Unidade, que surgiu em 1981), a agenda da esquerda ficou mais complexa e as energias se dispersaram. Temas terminou por ser ultrapassada pelos fatos e não teve oxigênio para seguir em frente. Seu programa de trabalho, porém, não deixou de produzir frutos.

Enquanto eu me lançava no mundo da imprensa e da editoração, a universidade fazia-se igualmente presente. Em 1974, ingressei no programa de Pós-Graduação da FFLCH-USP, para trabalhar sob a orientação do professor Oliveiros S. Ferreira com um projeto de pesquisa sobre “Positivismo e pensamento político no Exército brasileiro”. Eu havia saído da PUC-SP e da Escola de Sociologia e Política, e aceitara uma proposta para dar aulas em Santo André, no Instituto de Ensino Superior Senador Fláquer. Eram aulas de Sociologia da Administração, de Introdução à Sociologia, de Metodologia, para classes enormes e alheias às minhas preocupações de então. Nos dois anos em que lá fiquei (1975 e 1976), cheguei a dar 30 horas-aula por semana, num ritmo alucinante, excelente, de resto, para quem precisava de treino intensivo.

Por fim, no primeiro semestre de 1976, fiquei sabendo da abertura de um concurso de acesso ao corpo docente da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara. Amigos sugeriram que me candidatasse. Prestei o concurso e fui aprovado por uma banca de peso: Heleieth Saffioti, Luiz Pereira e Gabriel Cohn.

Comecei a trabalhar em agosto. Era uma nova fase que se iniciava, anunciando uma ligação mais forte com a universidade: dispondo-me a viajar semanalmente pela rota SP-Araraquara-SP e a me comprometer com uma instituição pública, era-me claro que se tratava de uma opção consistente. Fiquei por lá mais de 30 anos ininterruptos.

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