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Freio de arrumação

De forma direta e reta, longe de etiquetas teóricas e firulas retóricas – marca registrada de seu poder analítico –, o cientista político Carlos Melo escreve hoje, no Estadão, o que se comenta à boca pequena mas poucos sustentam explicitamente: “Mais que política, a crise é de Estado: para onde se olha haverá buracos”.

É uma observação precisa, da qual precisamos extrair as devidas conclusões. Não há, como se fala, uma crise de representação nem muito menos “da” representação, a não ser naquela dimensão que diz respeito aos desajustes eventuais entre o sistema e as circunstâncias, algo que é grave e importante, mas que não inviabiliza a democracia representativa. Não há, também, como seguir argumentando que as instituições políticas brasileiras estão dando conta do recado, como se elas estivessem acima de toda a confusão armada pela vida. Se a crise é de Estado, não há nada nesse universo que possa estar acima do bem e do mal: nada funciona adequadamente, tudo deixa a desejar, das leis e instituições às elites e aos partidos políticos.

E mais: sendo uma crise de Estado, a solução passa acima de tudo por uma política bem compreendida, aquela que se pratica com os olhos na comunidade política, numa ética pública superior, que se abre para a sociedade, para os cidadãos.

Enquanto não levarmos isso a sério e enfrentarmos o problema, continuaremos a derrapar. O País sofre, esperneia, grita por socorro, expõe suas chagas à luz do dia, mas os fatos são duros, não se deixam modelar com facilidade. Para serem desvelados e assimilados, exigem doses adicionais de discernimento, inteligência, argúcia e liderança, que faltam e não parecem poder ser obtidas no curto prazo.

O processo é cruel: arrasta consigo esperanças, ilusões, sonhos, expectativas, cria indiferença e indignação, desloca os cidadãos para um deserto de alternativas em cujas areias escaldantes só fazem crescer messias e salvadores da Pátria. Verdadeira obra de demolição, como escrevi meses atrás.

Teremos de cavar mais fundo, empregar melhores ferramentas, dispor de mais inspiração e mais transpiração.

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Ver o procurador-geral da República meter os pés pelas mãos e se enforcar nas cordas com que imaginou pendurar seus desafetos, tendo de desdizer o que disse e emporcalhando o instituto da delação premiada, só não é pior do que constatar a desfaçatez cínica com que Joesley Batista e a JBS circulam posando de bacanas e pisoteando cabeças e reputações. Janot, porém, não é o bandido da história, não há porque perdermos o foco. O buraco é fundo, está bem mais abaixo.

Ver dinheiro vivo (51 milhões!) em malas e imaginar de onde ele provém é um balde de soda cáustica que corrói a alma cívica tanto quanto os votos comprados para trazer ao País eventos esportivos que podem ter servido para exibir nossa cultura ao mundo, mas que ajudaram a arrasar a sociedade e deixaram um rastro de incúria, irresponsabilidade e desperdício que levará anos para ser apagado. O Rio de Janeiro que o diga.

São coisas que não se esquecerão jamais, que entrarão como genes defeituosos na corrente sanguínea e na estrutura genética da cidadania. Cobrarão um preço.

Precisamos urgentemente de um freio de arrumação, de um tempo para pensar, olhar no espelho, tentar descobrir quem somos e para onde queremos ir. Não será com bravatas, demagogia, conclamações a uma mobilização popular redentora, reformas políticas pontuais e mapas que só indicam mares dantes navegados que conseguiremos passar o País a limpo. Somente com muito esforço coletivo será possível prepará-lo para que as próximas gerações façam um trabalho mais definitivo e deem a última demão.

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