“Rain Lady”, de Hélène Farrar. Detalhe
“Rain Lady”, de Hélène Farrar. Detalhe

Jorge Nagle: A educação como valor permanente

Sua gestão à frente da UNESP fez com que a universidade deixasse de ser uma reunião de faculdades isoladas. Magnetizou professores e servidores, redefinindo procedimentos, incentivando a iniciativa acadêmica, aproximando áreas e campus.

Consta que Bertold Brecht, em uma de suas magistrais tiradas, escreveu: “Não basta ter sido bom quando se deixa o mundo; é preciso deixar um mundo melhor”.

Não são muitas as pessoas que mereceriam o elogio implícito na frase. Fazer o mundo melhor é difícil, requer talento, determinação e resiliência, passa pela habilidade de reunir colaboradores e pela sabedoria de modular o tempo, para que as mudanças amadureçam, seus frutos rompam e sejam valorizados.

Meu amigo Jorge Nagle, que faleceu no último dia 21 de junho, aos 90 anos de idade, foi uma dessas pessoas. Deixou marcas fortes por onde passou, graças ao estilo agregador e à coragem de enfrentar circunstâncias adversas.

Eu o conheci logo que cheguei na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, em agosto de 1976. A UNESP estava para ser criada. Debatia-se tudo o que dissesse respeito à sua constituição, decidida pelo governo estadual sem muita consulta aos professores, estudantes e funcionários. Naquele mesmo ano, recém-chegado, participei de uma comissão constituído pelo meu departamento (Filosofia e Ciências Humanas) para apreciar o anteprojeto de Estatutos da nova universidade. Tempos depois (creio que em 1978), por iniciativa de Nagle, integrei com ele a uma comissão da Congregação para estudar a Política Educacional do Instituto de Letras, Ciências Sociais e Educação, novo nome da Faculdade. Nasceu naquela comissão uma amizade que se estendeu pelas décadas seguintes, tendo se solidificado durante os anos em que Jorge foi Reitor da UNESP. Quando ele foi nomeado, eu estava na Itália, em um programa de pós-doutorado. Assim que voltei ao Brasil, em janeiro de 1986, fui trabalhar como Assessor de Comunicação e Cultura da Reitoria. Minha tarefa era coordenar e ajudar a expandir o recém-criado Jornal da UNESP, dirigido pelo jornalista José Roberto Ferreira, e estabelecer as bases da Editora UNESP.

O jornal foi em frente e a editora ganhou corpo. Com a criação da Fundação para o Desenvolvimento da UNESP, fui nomeado Diretor de Publicações, ao qual se vinculou a editora. O primeiro livro da editora saiu em 1987.

Em setembro de 1988, tive o privilégio de acompanhar o reitor da UNESP nas celebrações dos 900 anos da Universidade de Bolonha. Eu e o professor Nilo Odália brincávamos dizendo que éramos os “escudeiros” de Nagle. O evento foi grandioso, com a presença de reitores de 430 universidades de todos os continentes, que subscreveram a Magna Charta Universitatum, na qual se reconhecia a Universidade bolonhesa como a Alma Mater de todas as universidades. A Carta reafirmou a autonomia da Universidade, o vínculo entre atividade didática e atividade de pesquisa, refutando os limites impostos por “toda e qualquer fronteira geográfica ou política”. Foi uma viagem pontual, quase um bate-e-volta, mas nela minha amizade com Jorge e Nilo se consolidou.

Credo pedagógico

Nagle foi um apaixonado estudioso da educação. Com a publicação de sua tese de livre-docência (1966) — Educação e sociedade na Primeira República –, tornou-se uma referência na história da educação paulista. A escola pública foi seu foco permanente, na versão republicana que tanta dificuldade teve (e tem) de se fixar no Brasil. Sua utopia era a existência de uma escola para todos, livre de imposições ideológicas ou religiosas e de influências políticas espúrias: uma escola que interagisse com a sociedade e contasse com um sistema administrativo eficiente, mas que em nenhum momento minimizasse a dimensão técnico-pedagógica, intelectual.

Graduado em Pedagogia pela USP em 1955, Nagle foi docente e diretor da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) do campus de Araraquara da UNESP. Foi de lá que partiu sua longa carreira. Tornou-se professor titular e atuou na linha de frente das discussões sobre a escola e a educação, o que o fez receber do governo federal, em 1993, a medalha da Ordem Nacional do Mérito Educativo, condecoração criada para premiar personalidades com serviços excepcionais prestados à educação brasileira.

Nagle foi um líder. Em agosto de 1984, chegou à Reitoria da UNESP. O momento era difícil. A reabertura democrática avançava, mas a universidade ainda vivia sob o comando de interventores nomeados pelo governo estadual. O clima interno era de conflito. O governador Franco Montoro queria mudar a situação e pressionou o Conselho Universitário da UNESP para que o ajudasse a fazer isso. Dos professores titulares que integravam o órgão, nem todos dispunham do respaldo acadêmico indispensável e da vocação administrativa exigida pelo cargo. Nagle se diferenciava e foi indicado pelo governador para, na condição de reitor “pró-tempore”, acalmar a universidade e preparar o Conselho para a escolha de um dirigente sintonizado com os novos tempos. Meses depois, por indicação do Conselho, o governador o nomeou.

A gestão de Nagle fez com que a UNESP deixasse de ser uma reunião de faculdades isoladas. A atuação do reitor magnetizou professores e servidores, redefinindo procedimentos, incentivando a criatividade e a iniciativa acadêmica, aproximando áreas e campus. Nagle cercou-se de professores para auxiliá-lo e em sua gestão surgiram o Jornal da UNESP, a Editora UNESP, a Fundação para o Desenvolvimento da UNESP, o campus de Bauru, o Instituto de Física Teórica. Foram anos de um dinamismo que revolucionou a universidade.

Em 1988, Nagle foi Secretário de Ciência e Tecnologia, cargo que lhe possibilitou participar em posição privilegiada do processo de obtenção da autonomia administrativa e financeira pelas universidades estaduais paulistas, decretada em fevereiro de 1989.

Com seu estilo reservado, fez-se presente no circuito da educação, da ciência e da tecnologia. Presidiu o Conselho Estadual de Educação, integrou o Conselho Superior da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e o Conselho Federal de Educação. No final da década de 90, ligou-se à Universidade de Mogi das Cruzes, na qual coordenou o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Ensino e presidiu o Comitê de Ética em Pesquisa. Também integrou o Conselho Superior da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Em todos esses ambientes, bateu-se pelo que chamava de “credo pedagógico”, uma aposta no valor permanente da educação. Como observou a professora Carlota Boto, da Faculdade de Educação da USP, Nagle foi, acima de tudo, “um artífice do espaço público na educação”.

Construção institucional

Nagle morreu amargurado com a situação educacional brasileira. Hoje, quando os setores governantes menosprezam a educação pública, intelectuais como ele farão falta. Estamos carentes de lideranças que revigorem o sistema escolar e projetem a educação para o plano estratégico. Faltam-nos políticas educacionais que enfrentem os desafios da era digital em que nos encontramos.

Nagle fez parte de uma geração marcada pela preocupação em construir instituições sólidas, pelo rigor e pela envergadura ética e moral. Foi com essa bagagem que atuou para que a UNESP se tornasse realidade. Para ele, uma universidade honra seu nome quando funciona como uma “comunidade de destino” e compartilha saberes e experiências, não quando exibe posições em rankings e índices de produtividade.

Percursos institucionais não são feitos só de glórias e vitórias. Também conhecem derrotas e tropeços, momentos de refluxo, nos quais se constata certa fadiga de material e uma perda momentânea de foco. Não foram fáceis os anos de arranque da UNESP, assim como não são fáceis os dias atuais para o ensino superior brasileiro. Professores como Jorge Nagle enfrentavam esses momentos com determinação e liderança intelectual, buscando reunir o que cada instituição tinha de melhor, com base em valores democráticos.

Talvez não consigamos mais segui-los nesse particular. Nossa vida institucional se individualizou e se fragmentou demais, dificultando ações coletivas e agregações superiores. Mas podemos muito bem tê-los como referência, buscar neles a inspiração e a energia para prosseguir em condições razoáveis de temperatura e pressão.

Em termos pessoais, guardo de Nagle a memória de um amigo de rara integridade moral. Carinhoso e paternal, ele foi de extraordinária importância na minha vida, como conselheiro e inspirador. Nem sempre concordamos, discutimos bastante e alguns intervalos litigiosos abriram-se entre nós ao longo do tempo. Mas sempre conseguimos recompor um relacionamento que se pautou pelo respeito mútuo, pela camaradagem e por um afeto sincero. Sentirei muita falta dele.

compartilhe

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no pinterest
Compartilhar no print
Compartilhar no email

Deixe um comentário