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O novo que ilude

Com a campanha eleitoral encorpando e começando a se fixar no horizonte das ruas e dos palácios, muitas coisas podem ganhar outra qualidade. No momento, porém, o que há mesmo é muito fogo amigo e fumaça. Ninguém tem como prever o que acontecerá nos próximos meses.

Prova do momento de indefinições e jogos de cena é a sofreguidão como que se sai em busca de um nome que simbolize o “novo” em política. Dia sim, dia não, há quem procure fabricar um nome sob medida. O campeão das últimas semanas tem sido Luciano Huck, cortejado por muitos sem que se saiba quais são as armas de que dispõe. Huck é o novo que parece caído do céu, confortável, mas tão pouco consistente que levanta mais suspeitas que adesões entusiasmadas. Um tiro no escuro, disparado por uma boa dose de oportunismo. João Dória também tentou ocupar esse espaço, impulsionado pela vitória nas eleições municipais do ano passado, mas parece ter recuado depois de ter sua gestão mal avaliada pelos paulistanos e de ter recebido mais vaias que aplausos em sua peregrinação nacional. E há Meireles, claro, correndo por fora mas com apetite.

Os que constroem e incentivam candidaturas desse tipo agem como se acreditassem na existência de um fulano “puro” ou de alguém com maturidade inata e densidade suficiente para conquistar o povo, assumir o governo federal e fazer algo “diferente”. Nenhuma das figuras que jogam e se jogam na mesa passaria pelo crivo da política tal como ela é, com seus defeitos e suas virtudes, ou seja, com suas características próprias. Candidatos não são inventados a bel-prazer, e quando o são (Dilma, por exemplo) o resultado quase nunca é bom.

Candidatos inventados são como ilusões óticas. Mostram coisas que não vemos, que não existem ou estão distorcidas. Criam mil sensações, impostas pela “astúcia” das imagens, e em algum ponto da curva se desfazem.

Dirão os construtores e estrategistas de plantão que algo precisa ser feito para chamar os cidadãos de volta para a política, para, em suma, compensar a perda brutal de legitimidade dos políticos e da própria política como tal. Parecem acreditar na improvisação e na força magnética que teria uma estrela oculta, uma lua nova criada às pressas nas pranchetas dos marqueteiros. O pior é que, com seus inventos, vão sugestionando os caciques partidários e dando a eles a ilusão de que algo pode ser entronizado de dentro para fora na política prática.

Oferecem, como facilitadora, a ideia de que é preciso encontrar o mais perfeito “anti-Lula”, o demônio que deveria ser neutralizado e derrotado. Querem que o “novo” seja um elemento de polarização. Os mais radicais vibram com a perspectiva de que o ex-presidente seja preso ou impedido de disputar as eleições. Pintam-no como um “populista” irresponsável mas não conseguem vislumbrar como enfrentá-lo numa disputa eleitoral, que é onde os políticos devem ser julgados. O mote é dado pela perspectiva de se encontrar um quadro no qual um “nós” impreciso seja erguido como um dique contra Lula. É uma simplificação grosseira, que só faz aumentar o prestígio de Lula.

O fator Lula, por sua vez, ajuda a que se forjem polarizações a partir do outro lado da praça, que também tem seus artesãos e seus bruxos de plantão. A ideia é criar um cenário em que Lula ocuparia o espaço principal, ora impulsionando uma dinâmica Lula contra “eles”, ora apresentando o ex-presidente como “vítima” e o “único que pode salvar o país”. Torce-se para que as múltiplas pequenas polarizações artificiais desaguem numa grande polarização Lula x Bolsonaro, com a qual se imagina acomodar toda a complexa sociedade brasileira. Os esquemas maniqueístas simplórios tentam crescer mobilizando a seu favor a aparência retórica do “radicalismo”.

É um quadro trágico, que ergue uma interrogação diante de 2018 e em nada ajuda a que se pense o país com olhos generosos. Ao se afastar tanto assim das condições de possibilidade de uma competição eleitoral que honre o nome da democracia, os políticos só fazem aumentar o descrédito de que gozam na sociedade. Não percebem isso, porque sua arrogância os cega. Mas é o que acontece.

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