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De volta à rotina

Finalizado o recesso, agosto traz consigo a volta da política ao primeiro plano. Na quarta-feira, dia 2, em princípio, a Câmara votará o pedido de responsabilização do presidente por crime de corrupção passiva. O governo garante que tem votos para barrar o processo e não esconde que se dedicou intensamente a isso nas últimas semanas, valendo-se dos tradicionais expedientes de compra de apoio parlamentar. As bancadas ajudam, mesmo as dos partidos mais programáticos, como PT e PSDB, que por baixo do pano torcem para que tudo fique parado, confiantes de que Temer sangrando os protege da Lava Jato e é o caminho mais curto para uma vitória em 2018. As ruas, por sua parte, não mostram ânimo para agir.

Supondo que vença o governo, o que se terá na sequencia é uma incógnita. Setores e porta-vozes do Palácio asseguram que, com a vitória, Temer terá sossego para se dedicar ao que mais importa, a continuidade das reformas, que voltarão à agenda congressual. É uma avaliação feita para alegrar as bases. Novas denúncias e delações estão previstas e se acontecerem manterão a turbulência em alta. O governo não adquirirá repentinamente uma força que a rigor jamais teve, e as reformas não são pacíficas a ponto de angariar apoios generalizados. Muito ao contrário.

O governo terá de viver digerindo os índices de rejeição da opinião pública, que cresceram. Segundo as pesquisas, de cada cem brasileiros somente cinco consideram razoável o governo. É algo que precisa ser ponderado com cuidado. Se fosse exatamente assim, por que as pessoas não estão nas ruas a protestar? O desemprego turbina a sensação de inoperância governamental mas não provoca estrago maior porque a inflação está baixa. O que tem pegado mesmo é a imagem global do governo, sua espinha dorsal inoculada de corrupção, que as pessoas farejam. A relação popular com a corrupção é seletiva: se há desemprego e retração econômica, como em Temer, incomoda; se a memória é de um período de vacas gordas, como em Lula, pode ser perdoada.

Pesquisas são pesquisas, não se pode dar a elas um alto poder explicativo. São reativas. Com Temer sendo desancado em praça pública há meses, seria surpreendente que o povo estivesse a aplaudi-lo. É mais ou menos como perguntar o que as pessoas acham do bandido que acabou de assaltá-las.

O fato é que o governo Temer é fraco, não entusiasma nem inspira confiança. As pessoas percebem isso e estão ao menos por ora imunizadas contra o discurso oficial. A corrupção que o atravessa aprofunda a fraqueza e deixa um flanco aberto para que o governo seja desprezado.

Também é fato que a maioria dos brasileiros acha péssimo o conjunto da política, despreza partidos e instituições, pensa que o amanhã será pior que o hoje. E por que? Bem, porque os políticos são o que são e não ajudarão o país a melhorar.

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Nessas condições, que governo poderá bater no peito e se apresentar como campeão das reformas? Que “governabilidade” terá para oferecer?

A situação vem lá de trás. Não começou com Temer e ninguém, a rigor, deveria ser responsabilizado por ela: todos são culpados. As coisas simplesmente saíram do controle. O ciclo Dilma jogou combustível na fogueira que ardia, devidamente auxiliado pelo PT, pelo PMDB, por Temer e Lula. As oposições não souberam enfrentar o conjunto do desarranjo. Perderam-se oportunidades preciosas, a maior delas em 2013, quando as ruas se encheram de indignação e os políticos simplesmente viraram as costas para elas, a começar da Presidência da República. Fingiram que não estavam a ver um bolo que crescia, que inchava de revolta e desprezo, de desejo de coisas novas e providências urgentes. A casa foi caindo sem que ninguém se preocupasse em calçar os alicerces. Tocaram a vida, como se tudo pudesse ser resolvido mais à frente, quem sabe com a chegada de dragões da maldade ou santos guerreiros.

Veio o impeachment, Temer assumiu, organizou um governo medíocre, conseguiu apoio inédito no Congresso, mas virou as costas para a sociedade. Achou que se legitimaria pelo sucesso econômico, que não aconteceu. Foi perdendo apoio, até ser atingido no peito pela flecha envenenada da JBS, logo seguida por uma segunda, igualmente envenenada, da denúncia feita por Janot. O governo sentiu o golpe, cambaleou, ficou grogue, mas em vez de se recompor olhando para frente e dando ao ministério um pouco mais de compostura, rigor técnico e densidade intelectual, recuperou os procedimentos tradicionais para manter a tropa unida, liberou seu magma fétido para cortejar o “centrão”, distribuiu favores, verbas, emendas e prebendas. Amarrou o arranjo com o velho e bom fisiologismo de sempre.

Tudo só fez piorar. Reforçou-se o hiato entre o Palácio e as ruas, o governo e a sociedade, que instituiu uma nova polarização, muito mais forte e relevante que os saturados embates entre petistas e antipetistas, situação e oposição.

Um governo cambaleante não pode chamar para si a tarefa de reformar o país, a não ser que seja de modo artificial. Não se trata de saber se as pretendidas reformas vêm com o selo do mercado, do “neoliberalismo”. Se o capital é “hegemônico”, como se diz, nada mais natural que seu desejo vire ordem, sobretudo quando se vê a situação de terra arrasada na política, a falta de unidade mínima, a ausência de oposições programáticas sérias que possam gerar alternativas.

Mas não é porque o capital manda que as coisas acontecem. Também o mercado precisa se legitimar. Sendo como se supõe indispensáveis, as reformas precisarão de algo mais, no mínimo um consenso social, uma compreensão popular que forneça alguma predisposição para dar um crédito de confiança aos reformadores. Sem isso, só causarão mais estrago e confusão. Mesmo que o governo siga até o fim de 2018.

Agosto trará consigo a volta da política ao primeiro plano. Mas com ele não virá a grande política, a única que pode nos retirar do buraco em que nos encontramos.

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