Charge de Adnael
Charge de Adnael

Um partido para chamar de seu

A crise do PSL tem a ver com poder, mas passa especialmente pelo controle das finanças, algo vital quando se considera o calendário eleitoral do próximo ano

Todo mundo sabe que partidos políticos são entidades partidas, envolvidas em lutas internas e disputas que muitas vezes atingem as raias do absurdo.

Mas é inusual que partidos se autodestruam quando atingem o auge do sucesso.

Tensões costumam crescer quando se trata de apurar responsabilidades por derrotas ou erros graves, que ameaçam o futuro da agremiação. Nas vitórias, e naqueles períodos em que um partido  vive nos braços do povo, a sujeira tende a ser varrida para baixo do tapete.

No caso do PSL, a disputa interna é marcada antes de tudo pela falta de substância programática e doutrinária do partido e de seus personagens, em particular os que são ou desejam ser seus donos. Aqueles que se batem ali dentro nem sequer conseguem articular um discurso que justifique suas posições, o que leva o debate ao rés do chão, com troca de ofensas e baixarias em público.

A questão não é só de poder político, mas passa especialmente pelo controle das finanças, algo vital quando se considera o calendário eleitoral do próximo ano. A família Bolsonaro quer abocanhar a maior parte dos fundos a que o partido terá direito para, desse modo, acumular um patrimônio. Eduardo em São Paulo, Flávio e Carlos no Rio, o pai de todos querendo reinar no País inteiro, articulam-se para dobrar a máquina partidária a seus interesses. Têm procurado fazer isso com o PSL, que imaginam transformar num grande partido de massas que dê sustentação duradoura aos negócios da família.

Partidos são seres vivos, que crescem e precisam de alimento, cuidado, atenção. Não precisam, porém, de personalismos e autoridade unilateral, ainda que isso frequente a história de quase todos os partidos. Rasteiras, golpes baixos, chantagens, compra de votos, difamações e manobras sórdidas são muito mais comuns do que se imagina.

O presidente parece estar fazendo as malas para desembarcar do PSL. Precisa criar fatos que justifiquem a decisão e não o deixem mal na fita. Ele é useiro e vezeiro no troca-troca partidário, já passou por uma dezena de siglas ao longo da carreira. Talvez não lustre a imagem se mudar mais uma vez. Mas seu entorno é tóxico e apetitoso, e ele próprio deve gostar de se imaginar um líder popular, com um partido à disposição para organizar os salamaleques.

Acontece que há outros interesses no PSL e nenhum vetor com capacidade de organizar a confusão. Parte-se do suposto de que o presidente é um bom ativo eleitoral, mas ninguém quer posar de subalterno, ainda mais tendo em vista a possibilidade do governo federal não entregar tudo o que prometeu na campanha. O presidente, por sua vez, tem medo de não se sair bem nas eleições municipais e para compensar isso quer ter o partido na mão. No mínimo para ter a quem atribuir culpas e responsabilidades.

O impressionante é que ninguém, a começar da família Bolsonaro, se preocupa em avaliar o desgaste que a disputa partidária poderá causar no governo do pai. Pressionado pela economia que não deslancha, pelos problemas de Flávio com a Justiça, pelos “laranjas” do ministro do Turismo e pelas defecções que começam a acontecer, o governo terá de mastigar uma crise adicional e correr o risco de piorar ainda mais seu desempenho.

compartilhe

Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no pinterest
Compartilhar no print
Compartilhar no email

continue lendo...

2 comentários em “Um partido para chamar de seu”

Deixe um comentário