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Bolhas, espumas e poeiras

A atual cena política brasileira assemelha-se a um jogo de cartas marcadas, de correlação de forças congelada, de vazios petrificados.

Tudo indica que Temer terminará seu mandato graças à combinação de alguns motivos, como escrevi em outro texto.

Retomo a ideia: um presidente fragilizado, desmoralizado, sem crédito na praça e sem um programa ousado de governo, pode sobreviver, fazendo de conta que governa, deixando as tarefas importantes para seus assessores e dedicando-se às miudezas da pequena política. É triste e preocupante. Mas não é o fim do mundo.

A autonomia relativa das esferas da política, do social e da economia expandiu-se. O econômico não sofre tanto quanto se imagina a interferência do político, e o social segue sua dinâmica sem ser por demais influenciado pelo que se passa no mundo da economia e da política. Cada esfera gira a partir de sua própria lógica.

A economia tem relevância estratégica e poder concentrado de pressão. Mas não “manda” na política, nem detém nas mãos (nas mãos de seus agentes principais, os grandes conglomerados) todas as chaves e cartas do jogo. Pensar assim seria uma visão que aceita passivamente a derrota e não reconhece nem a autonomia nem a força constituinte da política. O poder é muito mais complexo e complicado do que isso.

O mercado – a economia – sempre luta para capturar o Estado e obter seus favores. Coopta pedaços do sistema político e se faz ativo nele. Cabe à política impedir que tal plano se consuma, erguendo trincheiras que permitam a entrada em cena de outros atores, valores e interesses.

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Um jogo de cartas marcadas não recomenda que os jogadores percam o foco e façam cálculos errados. Eles devem continuar no jogo para não perder demais e não serem dele desalojados: sabem que não podem vencer, mas precisam saber fazer com que as cartas os beneficiem ou não os prejudiquem em excesso, rodada a rodada.

É neste momento que ganham importância as virtudes da resiliência, da frieza, da paciência, da tenacidade, da serenidade.

A possibilidade de que as forças democráticas incidam no processo político em curso é baixa no curto prazo, mas alta no longo prazo. O jogo seguirá sendo jogado e nem sempre as cartas estarão marcadas, nem sempre os mais fortes estarão atentos, concentrados.

O momento atual é ruim para os democratas, mas não os convida à inação. Eles devem aproveitá-lo para preparar o dia de amanhã, adquirir maior clareza estratégica, formar quadros e novas lideranças, dialogar de modo proativo com a opinião pública e trabalhar para que se alcance uma nova ideia de país, um projeto bem concatenado que indique o que queremos ser e o que devemos fazer para sermos o que quisermos.

Não deveríamos ficar sonhando com uma estabilidade política que, no curto prazo (digamos, até 2018) é impossível e, no longo prazo, depende de variáveis que ainda não amadureceram.

Assim é a época em que vivemos. Precisamos nos acostumar a viver na turbulência e na incerteza, procurando não descartar o que já conquistamos, não edificar castelos nas nuvens, não cogitar de ataques a palácios, não desperdiçar energias.

Conjunturas existem e podem formar dinâmicas estruturais extensas. Mas a entrega ao conjuntural tende a exacerbar os espíritos e a fazer com que a Razão se atenha ao que é menos relevante. O decisivo é não cair em tentação, achar que as árvores dizem mais que a floresta e os fatos cotidianos contém em si toda a verdade. Olhar para os fatores macro, para o longo prazo, é decisivo para que não nos deixemos seduzir por bolhas, poeira e espumas.

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