
Precisamos falar a sério sobre os candidatos
Presidenciáveis precisam mostrar que são líderes. Devem estar dispostos ao sacrifício pessoal e ao sacrifício pela causa. A autossuficiência, a arrogância e a vaidade são seus principais inimigos.
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Numa dinâmica e instigante conversa, publicada no canal de Risério no Youtube, o antropólogo e o sociólogo discutem as principais questões da agenda política e cultural contemporânea.

Presidenciáveis precisam mostrar que são líderes. Devem estar dispostos ao sacrifício pessoal e ao sacrifício pela causa. A autossuficiência, a arrogância e a vaidade são seus principais inimigos.

Sem a criação de um espaço político mais generoso e unitário, será difícil projetar o futuro e governar o País. A sociedade vive profundo mal-estar, falta serenidade para quase tudo, a tensão é alta. A resposta dos dos governos e dos políticos tem sido insuficiente para sugerir um caminho.

O Brasil entrou no século XXI convencido de que o pior havia ficado para trás. Aos poucos foi ficando claro que as coisas não eram tão simples. Um caminho socialdemocrático poderia ter sido adotado. De uma eleição a outra, porém, tucanos e petistas se dedicaram a uma obra de destruição recíproca.

Chegamos ao ponto atual graças a uma confluência de fatores, alguns estruturais, outros associados à vida tecnológica e à globalização. Os partidos viraram as costas para a educação política dos cidadãos. Deixaram que a crise fosse se sucedendo sem processamento político.

Aumentou a percepção de que a dispersão pesa como ameaça real sobre todos os candidatos. Cabeças batem sem que se consiga agregar ou unir. No mínimo por isso, o manifesto por um “Polo democrático e reformista” pode cumprir papel relevante.

É um bom momento para que se tente dar destaque ao que une os cidadãos que se põem no território da democracia política, hoje ocupado por liberais, conservadores, socialistas e comunistas.

Não faz sentido supor que a esquerda seja toda ela dominada pelo marxismo ou pelas ideias de Gramsci. Falar que o marxismo domina a universidade cria um fantasma e atribui a ele problemas cuja origem está em outros fatores.

Em 2018, no Brasil, as centrais sindicais uniram-se num ato em Curitiba, numa articulação rara, que deveria ser motivo de comemoração. O problema é que há uma crise na vida sindical, provocada não pela política, mas pelas modificações na estrutura da vida social.

O mal-estar institucional, porém, é real. Hoje, no Brasil, o sistema vive numa espécie de “caos estável”: funciona, mas está cheio de problemas e gera pouca adesão cívica. Os cidadãos “obedecem” às regras instituídas, mas fazem isso por “gratidão” ou receio da punição, não por algum critério racional de “respeito” ou “apreço”.

Consensos “constituídos” na sociedade civil podem ajudar a que se construam consensos “racionalmente possíveis” na sociedade política. A postura realista e as ferramentas da teoria política são úteis para a compreensão da realidade.

Preso ou solto, Lula continuará vivo. Não há como ser sumariamente descartado da política brasileira. Há muitos recursos que podem ser mobilizados em termos simbólicos, ideológicos, organizacionais e partidários para mantê-lo ativo, seja como fator de interferência na política, seja como mito, herói ou mártir.

A política não está conseguindo coordenar a si própria e articular o social. A crítica democrática foi substituída pelo ressentimento, pela indignação moral, pela intransigência, pela intolerância. A incapacidade reflexiva faz com que os partidos não consigam processar intelectual e politicamente o mundo em transformação e se deixem encantar pelos enigmas que não conseguem decifrar.